quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sobre o espancamento da empregada doméstica no Rio


Onde estão os cidadãos indignados que tão prontamente se vestem de branco e aderem a passeatas e protestos transmitidos pelas emissoras de TV em nome da paz? Onde foi parar
a indignação cega que não titubeia em solicitar prisões e endurecimento das leis à justiça brasileira? Onde estão as pessoas assustadas, que em nome dos cidadãos "honestos" não temem em colocar o dedo em riste em direção aos bandidos, criminosos e marginais que, dizem, tem tornado a vida dos brasileiros tão difícil? Onde foram parar? Onde está a mídia com suas matérias especiais cheias das dores e das lágrimas que alimentam a indignação cega dos crédulos em sua imparcialidade? Onde foi parar o medo e o horror dessas pessoas?


No domingo, dia 24 de junho de 2007, uma mulher chamada Sirlei Dias Carvalho Pinto -
sim, ela tem nome e sobrenome - de 32 anos, empregada doméstica foi espancada, humilhada, xingada e roubada. Mas não pelo sujeito negro e pobre que a consciência racista e preconceituosa de nossa sociedade esperava e, afirmo sem medo, desejava. Ela foi espancada, humilhada, xingada e roubada por cinco bandidos que a mídia conivente não tem a decência de classificar como tal. Os "rapazes", como afirma o Jornal Folha de São Paulo, são estudantes universitários, certamente brancos, bem alimentados e, apesar das dúvidas que emanam do caso, foram supostamente bem educados. Porém, ao que tudo indica, a pobreza de Sirlei, aliada ao "berço de ouro" dos criminosos adormeceu qualquer possibilidade de indignação espontânea por parte da amedrontada sociedade brasileira. Porém, eis a surpresa: Rubens Arruda, Felipe Macedo Nery Neto, Júlio Junqueira, Leonardo de Andrade e Rodrigo Bassolo são criminosos, sim. Mas é preciso dizer; eles
não estão sozinhos. A escola na qual aprenderam tamanha crueldade não foi a cadeia, mas
a sociedade racista, preconceituosa, sexista e cínica na qual vivemos. As declarações
dadas por Ludovico Ramalho Bruno, 46 anos, empresário do setor naval e pai de um dos
bandidos em questão, com toda sua vileza, tornou-se o representante nomeado dessa sociedade que apodrece. Mas não são apenas as suas declarações. A própria reportagem
editada pela Folha de São Paulo, atende tão bem quanto Ludovico, ao papel de representante de nossa podridão e cinismo. Nela descobrimos que Sirlei cogita, junto com seu advogado Marcus Fontenele, mover uma ação contra os criminosos por danos morais, físicos, estéticos e financeiros. Um rol bastante significativo de danos. Mas, com espanto,
descobrimos também o seu valor para o jornal: "Ela vai ficar sem trabalhar por um bom
tempo". É esse, então, Folha de São Paulo, o pior que aconteceu e acontecerá a Sirlei? É possível mesmo que ela só tenha isso a perder? Como é possível escamotear o fato de que os cinco bandidos julgaram que ela fosse uma vagabunda, uma prostituta? Mas como diz nosso senso comum, somos uma sociedade de memória fraca. Por isso, é importante lembrar. Mulheres podem ser confundidas com vagabundas e prostitutas, assim como índios podem ser confundidos com mendigos. É assim, então, que se consegue legitimar crimes bárbaros nessa sociedade? É assim que se limpa a consciência de um país? Quem foi que ensinou esses a esses bons "rapazes" que prostitutas valem tão pouco? Quem foi que lhes disse que é legítimo espancar, roubar e humilhar prostitutas? Mas a matéria não pára aí. Seu responsável nos faz notar ainda que Ludovido tornou-se vítima de um tiroteio entre Policiais Militares e traficantes na Ilha do Governador enquanto negociava a rendição do filho. Pobre coitado. Afinal, é essa a parte da sociedade da qual ele quer livrar os "rapazes". Ele não tem nada a ver com os crimes que ocorrem nas favelas do Rio e do resto do país. Ele é apenas mais uma vítima, não é mesmo? O cinismo de suas declarações certamente ganha um toque especial com o cinismo da reportagem. Contudo, há mais. Felipe Macedo Nery Neto, o "único a manter uma postura agressiva", segundo o jornal, enquanto os outros choram e se dizem arrependidos, afirma em sua página no Orkut que um dos seus maiores prazeres é espancar pessoas sem que elas possam se defender. Pronto. Problema resolvido. Os outros "rapazes" certamente foram apenas vítimas da mente deturpada e sádica do amigo Felipe Macedo. Eles não queriam fazer isso não é mesmo? Eles apenas seguiam o impulso bárbaro do valentão sádico do grupo. O filho de Ludovico, e os demais, terão suas penas atenuadas - isso se houver punição - diante da descoberta de autoria do crime. A sentença, portanto, que como em outros casos precisa ser construída pela mídia na mente das pessoas, já está em curso. Mas eis que chegamos, enfim, às declarações vis do empresário naval: "Eles não são bandidos. Tem que criar outras instâncias para puni-los". Quer dizer que eles estão acima da lei? As que existem valem apenas para os outros? O fato de que os cinco bandidos não carregam no corpo as marcas da pobreza e da negritude é suficiente para relativizar e desculpar seus atos? "Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa nisso. Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalhando, presos.
É desnecessário, vai marginalizar lá dentro. Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses? (...) Não é justo prender cinco jovens que estudam, que trabalham, que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos.". Mas, afinal, Ludovico, eles têm pais, ou não têm? É verdade, eu me esqueci, o problema não é seu, é das drogas. É da epidemia de drogas que assola o país. Sua covardia é assombrosa e reveladora. Quer dizer que o problema dos presos de quem você quer afastar seu filho, como se eles fossem portadores de alguma peste, é não terem pai e mãe? Falha minha, novamente? Eu me esqueci, são somente os pobres que sofrem de "problemas estruturais na família", certo? É nisso que devo acreditar? Seu filho com 19 anos cometeu um ato "feio"? Isso, Ludovico, é o que digo à minha filha de 2 anos de idade quando ela resolve ser mal-criada. Não vale para quem espanca, rouba e humilha conscientemente outra pessoa por julgar que seus atos não condizem com uma moral machista e odiosa. Seu filho e os outros, diferente do que você diz, não têm qualquer caráter. "Existem crimes piores. (...) Peguei a senhora que foi agredida, abracei, chorei com ela e pedi perdão. Foi a

primeira coisa que fiz quando vi a moça, foi o mínimo que pude fazer".

Julgar que seu abraço e seu choro são suficientes, sinhozinho, é de tudo, o mais doloroso de suas declarações. Porque é preciso acreditar realmente, que o que foi feito à Sirlei não é grave, que ela vale pouco ou quase nada e que, portanto, o mínimo é suficiente. Pois não é. Não para mim. Quero que seu filho e os outros criminosos que agiram com ele sejam julgados com as leis que existem. Quero ver uma declaração menos cínica dos problemas que assolam esse país e que, sem dúvida, não se resumem às drogas. Quero ver os cidadãos "honestos" que estão sempre prontos a criminalizar a pobreza, a pedir pena de morte, redução da maioridade penal terem coragem de defender essas bobagens agora. O problema é que talvez eu queira um outro país. Meu nome é Patrícia Curi Gimeno, tenho 29 anos, sou estudante universitária, faço mestrado em Antropologia. Sou da classe média, branca, bem nascida, e educada. E apesar de ter nascido neste país e convivido com o mesmo discurso podre sobre a periculosidade dos pobres, apesar de ser bombardeada diariamente com a imagem de um país amedrontado pelo crime não acredito na pena de morte, não acredito na redução da idade penal, não acredito que pobres sejam perigosos assim como não compartilho com a moral apodrecida dos que julgam legítimo ou pouco condenável o ataque covarde a mendigos, prostitutas, meninos e meninas de rua, homossexuais, pobres, negros, supostos bandidos, etc etc etc. Mas, sobretudo, jamais deixarei que minha filha acredite que o silêncio seja uma opção. Vou ensiná-la que a dor, a injustiça, o engano e a guerra nunca podem nos ser indiferentes. É preciso acreditar que esse país pode mudar.

Texto recebido por email da colega Letícia Virtuoso - aluna da turma B de Antropologia - Introdução.

[Autor desconhecido]

4 comentários:

rosangela disse...

Adorei o texto. Esta´ tudo definido, explicado e proposto. Sou professora universitária e em todas as minhas turmas, independentemente da disciplina, paramos na época para discutir textos sobre o assunto. É claro que enquanto esse caso está na mídia, muitos outros estão acontecendo sem nenhuma punição. Eu gostaria de saber se os marginais (como você, o que mais me incomodou no caso foi eles nao terem sido chamados de criminosos ou marginais em nenhum momento pela mídia) estão presos de verdade. Vocês têm notícias? Parabéns pelo texto e pela consciência.

unifil virtual disse...

Gostei muito do texto,é uma pena que a nossa justiça seja cega e os advogados consigam achar tantas "brechas" nas leis que impossibilitam que ajustiça se concretise.

unifil virtual disse...

Gostei muito do texto,é uma pena que a nossa justiça seja cega e os advogados consigam achar tantas "brechas" nas leis que impossibilitam que ajustiça se concretise.

Karina Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.